Em 31 de maio, assinalamos o Dia Mundial Sem Tabaco, uma data que nos convida a refletir sobre a complexa relação entre os seres humanos e esta planta ancestral. Em 2025, a Organização Mundial da Saúde escolheu como tema “Desmascarando a indústria do tabaco: expondo as táticas das empresas para tornar os produtos de tabaco e nicotina atraentes” – um convite para olharmos criticamente para a transformação de uma planta outrora sagrada num produto industrializado responsável por milhões de mortes anuais. A Ponte Entre Dois Mundos
Quando falamos sobre tabaco, estamos perante uma dualidade fascinante. Por um lado, temos uma planta que por milénios foi venerada por povos indígenas, utilizada em contextos rituais, medicinais e espirituais. Por outro, enfrentamos uma indústria global que manipula esta mesma planta, adicionando milhares de substâncias químicas para maximizar a dependência e o lucro, resultando numa das maiores crises de saúde pública da história moderna.
Esta ponte entre o sagrado e o comercial, entre o respeito ancestral e a exploração moderna, oferece-nos importantes lições sobre a nossa relação com plantas medicinais e substâncias psicoativas.
O Tabaco na História Portuguesa e Europeia
Portugal teve um papel fundamental na introdução do tabaco na Europa. Após os primeiros contactos com as Américas no século XV, os navegadores portugueses trouxeram a planta para o continente europeu, onde inicialmente foi valorizada pelas suas supostas propriedades medicinais.
No século XVI, o diplomata francês Jean Nicot (de quem deriva o termo “nicotina”) enviou sementes de tabaco de Lisboa para a corte francesa, promovendo-o como uma “erva milagrosa” com propriedades curativas. Esta ligação histórica entre Portugal e a disseminação do tabaco na Europa é um capítulo importante da nossa herança cultural.
Contudo, o que começou como uma planta medicinal rapidamente se transformou num produto comercial lucrativo. Portugal, como outras potências coloniais, estabeleceu plantações de tabaco nas suas colónias, contribuindo para a transformação da planta sagrada numa commodity global.
O Panorama Atual em Portugal
Dados recentes revelam um cenário preocupante em Portugal. Segundo estatísticas de 2024-2025:
•A prevalência do consumo de tabaco em Portugal aumentou de 48,8% para 51% nos últimos anos
•Embora o consumo de tabaco tradicional tenha diminuído entre os jovens desde 2015, os cigarros eletrónicos (vapes) mantêm a sua popularidade
•O Governo português prevê um aumento do consumo de tabaco em 2025, gerando preocupação entre os profissionais de saúde
•Apesar de Portugal nunca ter feito as contas completas, estudos internacionais mostram que os custos para a saúde pública superam largamente as receitas fiscais do tabaco
A Direção-Geral da Saúde (DGS) tem implementado várias campanhas, como “Mais Vida Sem Tabaco” e “Eu Fumo Tu Fumas”, visando sensibilizar a população para os riscos do tabagismo e promover a cessação tabágica. O objetivo nacional é ambicioso: criar uma “Geração Sem Tabaco até 2040”.
Desmascarando as Táticas da Indústria em Portugal
O tema do Dia Mundial Sem Tabaco 2025 convida-nos a examinar criticamente as estratégias utilizadas pela indústria tabagista para atrair novos consumidores e manter os atuais dependentes. Em Portugal, estas táticas incluem:
1.Marketing direcionado a jovens, particularmente através de produtos como vapes com sabores atrativos
2.Desenvolvimento de novos produtos como cigarros eletrónicos e produtos de tabaco aquecido, apresentados como “alternativas mais seguras”
3.Embalagens atrativas, apesar das advertências de saúde obrigatórias
4.Presença em festivais e eventos culturais frequentados por jovens
5.Influência em políticas públicas através de lobby e contestação de medidas de controlo do tabaco
A Sociedade Portuguesa de Pneumologia tem alertado para estas táticas predatórias, especialmente as dirigidas a crianças e jovens, apelando a uma maior regulamentação e fiscalização.
Honrando o Ancestral, Rejeitando o Industrial
Como podemos honrar o conhecimento ancestral sobre o tabaco enquanto rejeitamos as práticas predatórias da indústria moderna? Esta é uma questão central para quem busca uma relação mais consciente com plantas medicinais e tradições indígenas.
Algumas reflexões importantes no contexto português:
•Educação e contexto: Compreender o papel histórico de Portugal na disseminação do tabaco, sem romantizá-lo ou simplificá-lo
•Valorização do património etnobotânico: Reconhecer a sabedoria tradicional portuguesa sobre plantas medicinais, incluindo o entendimento dos potenciais riscos
•Consciência crítica: Questionar as táticas de marketing e as alegações da indústria sobre “produtos de risco reduzido”
•Apoio a políticas públicas: Defender regulamentações baseadas em evidências que protejam a saúde pública, especialmente de jovens
Uma Reflexão para a Loja da Kaya
Como espaço dedicado à valorização de plantas medicinais e conhecimentos ancestrais, a Loja da Kaya tem um papel importante na promoção de uma relação consciente com substâncias naturais. Neste Dia Mundial Sem Tabaco, convidamos os nossos clientes e seguidores a refletirem sobre:
- A diferença fundamental entre o uso ritual/medicinal tradicional e o consumo recreativo moderno
- Como podemos aprender com tradições ancestrais sem nos apropriarmos indevidamente de práticas sagradas
- A importância de informações baseadas em evidências sobre os riscos do tabagismo
- O valor do conhecimento tradicional sobre plantas medicinais e a sua preservação
Conclusão: Por Um Futuro Mais Consciente
O Dia Mundial Sem Tabaco não é apenas sobre combater o tabagismo – é uma oportunidade para repensarmos a nossa relação com plantas medicinais, tradições ancestrais e saúde pública. Ao compreendermos a jornada do tabaco – de planta sagrada a produto industrial letal – podemos desenvolver uma visão mais nuançada e consciente.
Honramos o conhecimento ancestral ao mesmo tempo que reconhecemos os riscos modernos. Respeitamos as tradições indígenas enquanto rejeitamos as táticas predatórias da indústria. E, acima de tudo, buscamos uma relação mais equilibrada, informada e respeitosa com as plantas que fazem parte da história humana.